O CAMAURO E O PAI NATAL


Na madrugada do último dia do ano, sem tempo para buscar uma imagem do saudoso Papa João - o XXIII (1958-1963), não o XXII, que também era citado assim pelos seus contemporâneos (1316-1334), - sem tempo para buscar uma imagem mais visível da figura do bispo de Roma, que, nos domingos da Quaresma de 1961 e 1962, acompanhávamos na visita pastoral que à tarde fazia às paróquias da sua diocese. Essas visitas reatavam uma tradição interrompida há mais de um século e que havia de ser seguida pelos seus sucessores imediatos: O papa João XXIII, que sistematicamente quebrava as ergras do protocolo, para estar mais perto dos seus diocesanos, havia também retomado o costume de usar, nos dias frios do inverno romano, o barretinho protector que pertencera à indumentária da grande maioria dos papas, desde a segunda metade do XII até finais do século XVIII, com Clemente XIV(1769-1774).
Constituíu assim, para a minha memória de antigo residente na Ciadde Eterna, um reconfortante suplemento emocional, o aparecimento de Bento XVI, nesta quadra natalícia, envergando sem complexos um protector contra o frio que me traz inevitavelmente à memória o sorriso de João XXIII. O pior foi quando a comunicação social começou a dizer que o Papa aparecera vestido de Pai Natal. Não porque fosse mau que tivesse acontecido. Não. Isso, apesar de estranho, sobretudo tendo em vista que Bento XVI vem do mundo onde a maçonaria do século XIX foi buscar a figura do Pai Natal, para evitar as referências ao Menino Deus, que era quem dava a São Nicoalu os mimos que distribuía pelas crianças; estranho ainda, porque dias antes o próprio Bento XVI falara do valor pedagógico do Presépio; isso, apesar de estranho, não teria, em meu entender, mal nenhum.
O desgosto que me assaltou veio da verificação de quão fundo se cavou já o abismo que separa os europeus das suas raizes culturais: A mesma ideologia que transformou São Nicolau, no Pai Natal - e que, perdida também essa refrência, inventou há pouco a "Mãe Natal" - esqueceu por completo a tradição romana do CAMAURO, afinal importado da Grécia, com o respectivo nome (Kamelauchion<camelaucum), esquecendo que talvez não seja um mero acaso, Bento XVI, cujas preocupações ecuménicas são conhecidas, retomar o costume de João XXIII.
É uma pena, que nos tornemos cada vez menos capazes de perceber a nossa própria identidade!.